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Felipe

FOTOGRAFIA: FÁBIO LAMOUNIER + RODRIGO LADEIRA  |  VÍDEO: GUILHERME SANTIAGO  |  TEXTO: FÁBIO LAMOUNIER  | TRADUÇÃO: RAFAEL FONTENELLE

10092015


Conheci o Felipe em uma destas festas de rua em Belo Horizonte, por uma amiga em comum. Já acompanhávamos os projetos um do outro sem que soubéssemos que naquelas conversas estavam os autores. O projeto em questão dele é o Peitinho Sim, onde trata de feminismo, corpo, sexualidade através de pinturas que realiza sobre fotografias. Em pouco tempo conversamos por e-mails e combinamos uma participação mútua em cada projeto. Ele mudou-se para BH há pouco mais de um ano: natural do Rio, o rapaz de 23 anos trouxe consigo as levezas das cidades litorâneas: sotaque, as cores, o caminhar livre como se pisasse em chão de areia.

✗  I met Felipe in one of those street parties in Belo Horizonte, through a mutual friend. We already used to follow up on each other’s projects without knowing that the authors were there in each conversation we had. His project is called Peitinho Sim, in which he explores feminism, body, sexuality through paintings he does over photographs. In a short period of time, we e-mailed each other and agreed on participating in each others’ projects. He moved to Belo Horizonte over a year ago: born in Rio de Janeiro, the 23 year old guy brought with him the lightness of the coastal cities: the accent, the colors, the freedom in his walk, like he was stepping in the sand.

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Ele foi dos ‘chicos’ que já pensou antes o que compartilharia, como também trouxe uma sugestão para as fotografias: de mãos cheias de pó amarelo, nos encolhemos num quarto aqui de casa de parede preta, e começamos a fotografar o impacto e contraste entre o pó neon e sua pele. Enquanto nos divertíamos com os testes de jogar o pó e congelar o seu caminho até atingir o corpo do Felipe, sonorizados pelo gosto compartilhado de Regina Spektor, seu depoimento tomou um caminho mais sóbrio. Sendo negro e gay, ele quis falar do espaço que ocupa frente uma sociedade ainda racista e homofóbica. “Quando você é negro e gay as barreiras são maiores. São duas coisas que já são marginalizadas, e quando você precisa provar alguma coisa, você precisa se sobressair (…) Isso me tornou uma pessoa extremamente competitiva, e nem sempre é 100% saudável.”

✗ He was one of the ‘chicos’ who had already thought about what he would share, and also brought up a suggestion to the photographs: with his hands full of yellow dust, we chose a room in my place with a black colored wall, and started photographing the impact and the contrast between the neon dust and his skin. And while we had some fun testing throwing the powder and trying to freeze its way through Felipe’s body, along with the background sound of Regina Spektor’s songs, his testimony went into a more sober tone. Being black and gay, he wanted to talk about the place he occupies in a society that is still racist and homophobic. “When you’re black and gay, the barriers are higher. You have to deal with two already marginalized aspects, having to stand out when you need to prove someting (…). This made me an incredibly competitive person, which is not 100% healthy”.

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Outro ponto que ele toca é na sexualização do homem negro. “O homem negro e gay é visto como se fosse de uma forma só: sempre ativo, sempre de pinto grande, sempre bombado, sempre violento na cama. Isso não é verdade. Quando você é gay e negro e não se encaixa em nenhuma dessas características, você acaba sendo marginalizado até dentro do próprio meio. A hiperssexualização acontece e às vezes nem é percebida. É preciso se atentar que as pessoas não são objetos. Sexo é bom, todo mundo gosta, mas ninguém serve só pra isso.”

✗ Another subject he talks about is the sexualization of the black man. “Black men are seen as this one image: always sexually top, always big dicked, always muscular, always violent during sex. This is not true. When you’re gay and black, and don’t fit in none of these features, you get cast aside in your own midst. The hypersexualization occurs and sometimes is not even noted. It is important to realize that people are not objects. Sex is good, everybody likes it, but no one can be reduced to just sex”.

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“Toda essa identidade que está aqui há pouco tempo eu não ‘tinha’. Eu me preocupava em deixar o cabelo sempre curto, não deixava a barba crescer, achava que se crescesse ia ficar feio, porque seria uma barba crespa. Eu vejo essa aceitação hoje como algo importante, serve para incentivar outros meninos mais novos. Eles podem assumir sua identidade e se verem bonitos sim, do que pensar que seriam mais se encaixassem dentro de um outro molde mais normativo, etc”.

✗  “All this identity you see was not a part of me until recently”. I used to worry about using my hair always short, not growing a beard, I thought this would make me ugly, for my beard is curly. And I see the acceptance today as something important, to encourage some of the younger boys. They can take on their identities and see themselves as beautiful, and not thinking about how they would be more beautiful if they adjusted to a more normative mold, etc”.

 

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O pó amarelo invariavelmente me lembrou areia de praia, quando me contou um pouco da infância e dos tempos em Teresópolis, cidade próxima do Rio de Janeiro. Aos poucos, enquanto íamos fotografando o choque da poeira com sua pele, foi tomando outro significado: o corpo que resiste ao impacto, ao imposto; À gravidade, à dureza. E, mesmo assim, mantém-se leve, suave. Livre, e com vista pro mar.

✗  The yellow dust invariably reminded me of beach sand, when he started sharing the stories of his childhood in Teresópolis, a town quite close to Rio de Janeiro. Bit by bit, as we photographed the shock of the dust with his skin, it all showed another meaning: of the body who resist to impact, to gravity, to hardness. And, even so, remains light, smooth, free, and with a view of the ocean.