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Alex

COLLABORATORS’ POST //// TEXTO + ILUSTRAÇÕES: ALEX DOMINGOS

30102015

Eu nunca parei pra pensar em como o meu trabalho fala sobre a minha sexualidade. Aliás, levar algo meu pra coisas que eu ilustro é algo um tanto recente. Fiquei pensando um tempo sobre essa questão, tentando me fragmentar pra falar da minha sexualidade. Vi então que eu nunca falei disso sem que eu falasse de mim. Sei que o fato de ser gay é boa parte dessa sensação cotidiana de “estar em carne viva” que eu sempre tive. “Mas por que eu deveria me separar da minha sexualidade?” – começo a pensar. A minha sexualidade sou eu, sempre foi. Mesmo depois de contar pros meus pais sobre ser gay e minha mãe começar a me chamar de “bicha” e “viado” no lugar do meu nome. De repente eu vivia num cenário onde eu fui completamente reduzido a minha orientação sexual, interpretada do jeito mais distante de quem eu era. Mas pouco a pouco eu fiz com que ela visse que ainda podia me chamar de Alex, pois eu ainda era a mesma pessoa.

✗ I’ve never thought before about how my work speaks about my sexuality. By the way, to put something related to me and my feelings to what I illustrate is quite recent. I thought for a while about this, trying to understand “fragments” of myself to talk about my sexuality. Then I saw that I’ve never talked about it not mentioning myself. I know that being gay is much of this everyday feeling of being “raw” that I’ve always felt. “But why should I separate myself from my sexuality?” – I started asking. My sexuality is me, it has always been. Even after telling my parents that I’m gay and my mom started calling me “fagot” or “queer” instead of just calling my name. Suddenly I was living in a scenario where I was completely reduced to my sexual orientation, seen in the farthest way from who I was. Little by little I managed to show her that she could still call me Alex, because I was the same person after all.

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Tinha acabado de terminar um relacionamento que, apesar de curto, foi um dos mais intensos que já vivi. Pensar nele, depois do término, era pura sinestesia. Era quase sempre a mesma cena: ele me abraçando por trás, apoiando o queixo na minha cabeça, que se abaixava devagar enquanto eu deixava correr um choro mudo. Os pelos das minhas costas e nuca ficavam eriçados, assim como meus braços, as laterais do meu corpo e meu peito ficavam mais quentes. Vivíamos brincando sobre como vivíamos um relacionamento líquido – Bauman com todos os seus amores aguados, laços frouxos e futuros melhores que presentes. Mas a minha liquidez era a de Saramago em sua dedicatória a Pilar, sua mulher. Ele disse: “a Pilar: como se dissesse “água””. Era sobre aquelas coisas que só o não dizer é que diz, como aquele “eu te amo” que se diz através do que se faz. Era sobre arrumar a sala, fazer o jantar, deixar ele ficar com a maior parte do cobertor e comprar coxa-creme (uma coxa de galinha coberta por massa de coxinha). Água que não precisava ser dita para se beber dela. Mas agora essa água precisava sair e correr outro fluxo. Ela precisava beber de si mesma.

✗ I had just ended a relationship that, despite being short, it was one of the most intense ones I have ever lived. To think of it, after the break up, was pure synaesthesia. It was almost always the same scene: he hugging me from behind, resting his chin on my head, which lowered slowly as I let run a silent cry. The hair of my back and neck were bristling, like my arms, the side of my body and my chest got warmer. We used to say we lived a liquid relationship – Bauman with all his ‘watery’ loves, loose ties and the future better than the present. But my liquidity was like Saramago’s in his dedication to Pilar, his wife. He said, “to Pilar: as if I say ‘water’.” It was about those things that silence tells more than words, like that “I love you” that is said by what one does. It was about cleaning the place up, making the dinner, letting him keep most of the blanket and buy thigh-cream (a chicken leg drumstick covered by mass). Water that did not need to be told to be drank. But now that water needed to get out and run another stream. She needed to drink herself.

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Jorge

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Guilherme + Lucas

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Victor

Então surge esse projeto. Vejo a cada um dos Chicos e, sem nem pensar duas vezes em qual seria o critério, escolho aqueles cujas histórias foram as que eu mais gostei. Escolho as fotos de um jeito instintivo e aleatório, fosse por ser aquela que me passasse mais sentimento, fosse pela estética, pela luz, mas principalmente por algo que eu não conseguisse dizer, assim como a água que não se diz, só se bebe. Os Chicos foram saindo de um jeito fragmentado – uma forma de falar sobre o calor e os pelos eriçados das minhas lembranças, ainda meio sem saber o que essas coisas significavam, mas certo de que eu precisava colocar aquilo em algum lugar.

✗ Then I got to know this project. I saw every one of those Chicos and, without thinking twice about what would be the criteria, I chose those whose stories were the ones I liked the most. I  chose the pictures by an instinctive and random way: from the ones who passed me more feelings, whether for aesthetics, for light, but mainly something I could not say, like that water that’s not told, only drank. The Chicos were emerging in a fragmented form – a way to talk about the heat and the hair bristling of my memories, still not knowing exactly what those things meant, but sure that I needed to put it somewhere.

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Lázaro, e Bossuet

Quando eu terminei as ilustrações, reuni todas e fiquei olhando pra elas por um bom tempo. Catarse era o nome. Era bom ver aquela água toda do lado de fora. E ver aquela aguaceira do lado de fora fez eu perceber coisas que eu não tinha visto antes. Vi que escolhi cada Chico por como a vulnerabilidade de cada um falava com a minha. Vi que, juntando os fragmentos de cada Chico, eu chego a uma boa parte do que eu conheço de mim. E se teve uma coisa que esse meu relacionamento me ensinou foi a beber mais de mim mesmo e a me beber direito. As pinceladas, os pelos eriçados, o calor… Essas coisas não são sobre um relacionamento que chegou ao fim, mas sobre conexão. Dessas que às vezes, só às vezes, quando você diz “pra sempre”, é pra sempre mesmo. Existe uma linha secreta ali, conectando tudo e todo mundo. E quando você passa o dedo nela, ela reverbera em todo o espaço. E às vezes quando você diz “pra sempre”, o dedo pousou sobre a linha, desceu, se demorou um pouco mais e soltou. Não é mais sobre o tempo, espaço, distâncias ou anos. O tremor pode ser o menor possível. Mas ele ainda existe lá. E avança. Que nem água.

✗ When I finished the illustrations, I’ve gathered them all and stared at them for a long time. Catharsis was the name. It was nice to see all that water on the outside. And see that made me realize things I had not seen before. I saw that I’ve chosen each Chico by their vulnerability – each one spoke with one of mine. I saw that, joining the fragments of each Chico, I got a huge part of what I know of me. And if it was something that my relationship taught me was to drink more of myself and drink me right. The brushstrokes, the hair bristling, the heat … These things are not about a relationship that came to an end, but about connection. That sometimes, just sometimes, when you say “forever”, it really means it. There is a secret line there, connecting everything and everyone. And when you slide your finger on it, it reverberates throughout the space. And sometimes when you say “forever”, the finger land on this line, go down, it take a little longer and then let go. It is not about time, space, distance or years. The tremble can be minimized. But it still exists there. And advances. Like water.

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Gustavo

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Felipe